RADIO A FERRO E FOGO

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domingo, 31 de maio de 2009

THE SACRED MUSHROOM - THE SACRED MUSHROOM 1969.




THANK EQUIPE RAREMP3

FREE - ROCK ME STEALER


JEFFERSON AIRPLANE - FILMORE WEST: SAN FRANCISCO (1970)


GRANDE ALBUM DESSE INCRIVEL JEFFERSON AIRPLANE

ANYONE´S DAUGHTER - ADONIS (1979)


ANYONE´S DAUGHTER - SAME 1980


GRANDE ALBÚM

ANDROMEDA - ANDROMEDA (1969)




GRANDE DISCO DE 1969

BRUCE HAMANA - SAME 1974


NATIVO AMERICANO QUE SURGIU NO CENÁRIO DE PAZ E AMOR DO FINAL DOS ANOS 60. ESSE DISCO É MÁGICO. PARA OS AMANTES DO CLIMA DE PAZ E AMOR QUE PERDEMOS.

FLOWER TRAVELLIN BAND - ANYWHERE


GRANDE BANDA JAPONESA. ALTAMENTE RECOMENDADA!

RARE EARTH - ECOLOGY (1970)


GRANDE BANDA DE R&B
RECOMENDO.
SENHA: farao25

ANANDA SHANKAR - SAME 1970


UM DISCO PSICODÉLICO DO COMEÇO AO FIM COM UM MAGISTRAL COVER DO THE DOORS. INFELIZMENTE ANANDA JÁ ESTÁ EM OUTRA GALÁXIA VITIMA DE UM ATAQUE CARDÍACO EM 1999.
RECOMENDO!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

EASY RIDER - TRILHA SONORA DE UM MOMENTO MÁGICO













O filme Easy Rider [Sem Destino em português] em 2009, faz 40 anos, e apesar do tempo, ainda é muito lembrado. Em grande parte, essa fama se deve a excelente trilha sonora.O filme narra a viagem de dois motociclistas, Billy e Wyatt, (Peter Fonda e Dennis Hopper) pelos Estados Unidos. Sob a direção do próprio Dennis Hopper, o filme ganhou vários prêmios, contou com a participação do até então, promissor ator Jack Nicholson, que com uma magnífica atuação, no papel de um advogado beberrão, faturou vários prêmios. O filme busca a idéia dos anos 60, sexo drogas e rock and roll. A liberdade, que o filme traz em seu enredo conquistou platéias ao redor do mundo, fazendo desse um clássico imperdível.A trilha sonora é de arrepiar, e conta com clássicos do Steppenwolf, The Byrds, The Jimi Hendrix Experience entre outros.

ALLEN GINSBERG - TÚNEL DO TEMPO - UMA ENTREVISTA FANTÁSTICA (GRATO AO HELLRAISER PELA DICA)

ALLEN YOUNG ENTREVISTA ALLEN GINSBERG A entrevista a seguir foi realizada no sítio de Ginsberg, em Cherry Valley, Nova York, a 25 de setembro de 1972. Foi publicada pela primeira vez no número 16 de Gay Sunshine (janeiro de 1973) e no número 17 (março do mesmo ano) numa versão editada por Winston Leyland. Mais tarde, em 1974, foi publicada pela Grey Fox Press em edição popular. Allen Young, autor da entrevista, era na ocasião ativista do movimento gay, co-editor, ao lado de Karla Jay, das antologias Out of Closets: Voices of Gay Liberation, 1972, e de After You´re Out, 1975.
YOUNG - Uma das coisas que deu origem a esta nossa conversa foi a minha leitura de Dharma´s Bums ["Os Vagabundos do Dharma", de Jack Kerouac, publicado em 1958, no verão passado. Nesse livro, o personagem Alvah, você, no caso, obviamente, é representado por Kerouac como heterossexual. Ocorrem ali vários encontros sexuais, mas não há o menor indício de homossexualismo entre aquelas pessoas.
GINSBERG - Esse era o problema de Kerouac. Você sabe que dormi com Kerouac muitas vezes. E Neal, seu herói, e eu fomos amantes por muitos anos. Pelo menos eu desejava que fôssemos e, desde 1946, em alguns períodos, fomos para a cama com freqüência; mas tudo deu em nada... Finalmente, ele já não quis saber de sexo comigo e me rejeitou! Foi isso o que ele acabou fazendo! Mas ainda o fazíamos na metade dos anos 60, depois de ter-nos conhecido na metade dos anos 40, de modo que foi uma amizade muito longa e íntima, no que diz respeito a Neal e Jack.
YOUNG - Jack Kerouac definiu-se como gay? G
GINSBERG - Não, isso ele não fez. Muito do que falei ocorreu numa cabana que mantínhamos em comum e, nessa época, já fazia alguns anos que eu vivia com Peter. Peter, Jack, Gary [Snyder] e eu, e mais alguns outros, trepávamos com uma ou duas garotas que freqüentavam o local. Jack me viu fodendo com uma delas e surpreendeu-se com a minha virilidade. Acredito que foi então que ele decidiu escrever um romance no qual eu era um herói grande e viril, em vez de uma bicha judia e comunista.
YOUNG - Como você reagiu diante disso? Acreditou que ele fez isso para se ocultar?
GINSBERG - Não percebi. No manuscrito original de On the Road, há uma cena em um motel na qual Dean Moriarty trepa com um viajante com quem tinha ido a Chicago num grande Cadillac, e há uma descrição de duas linhas que matiza e dá dimensão ao personagem de Cassady. Na metade dos anos 50, Malcolm Cowley eliminou essa passagem do livro, com a anuência de Jack. Como você pode ver, Jack abordou o tema na sua obra. Num livro que está para ser publicado, Visions of Cody, há uma descrição mais ampla da mesma cena; Kerouac a escreveu em 1950/51; foi seu primeiro livro depois de On the Road, e conseqüência deste. Foi um grande livro experimental que inclui umas duzentas páginas de conversas gravadas e transcritas entre ele e Neal, enquanto fumavam baseados à meia-noite em Los Gatos, ou em San José, e falavam da vida, da primeira vez que mantiveram relações sexuais, da primeira vez em que se masturbaram e das suas aventuras em Denver.
YOUNG - E por que só agora esse texto é publicado?
GINSBERG - Kerouac sempre desejou que fosse publicado. Mas o mundo das publicações comerciais não estava preparado para um livro tão aberto, de um espírito tão estranho e uma estrutura tão complexa. Está mais para Making of Americans, de Gertrude Stein, do que para um vertiginoso Kerouac.
YOUNG - Você teve de brigar com Kerouac por sua publicação?
GINSBERG Ah, sim. On the Road foi escrito em 1950 e só foi publicado em 1957, apesar de que ele já tinha publicado seu grande livro Town and the City. O critério comercial exigia que ele escrevesse algo simples e agradável, que todos pudessem entender, que explicasse tudo sobre a geração beat. De modo que escreveu Dharma´s Bums sob medida para o seu editor, uma espécie de exercício de virtuosismo e magnanimidade bodhisattva. Redigiu o texto em orações curtas que todos podiam entender, com a descrição da revolução espiritual tal como a enxergava, usando Gary Snyder como herói; porque, na realidade, Japhy Ryder é Gary Snyder.
YOUNG - De modo que a sua caracterização como heterossexual não tem relação nenhuma com o desejo de ocultar?
GINSBERG - Não, saí do armário em Columbia, em 1946. A primeira pessoa a quem falei a respeito foi Kerouac, porque eu estava apaixonado por ele. Às vezes, ele ficava no meu alojamento e dormia na minha cama e eu numa enxerga no chão. Eu lhe disse: "Jack, sinto tesão por você e quero trepar com você. Eu gosto mesmo é de homem." E ele respondeu: "Ah, não..." Fazia mais ou menos um ano que nos conhecíamos e até então eu não havia dito nada a respeito. Naquela época, Kerouac era muito bonito, muito charmoso e muito meigo - meigo no sentido de infinitamente compreensivo, como Shakespeare ou Tolstói ou Dostoievski, infinitamente compreensivo. Em certo sentido - há uma expressão que ouvi de Robert Duncan a respeito da poesia, e outros acerca das relações entre mestre e discípulo - como uma pessoa um pouco mais velha, alguém que sentia com mais autoridade, e sua compreensão me autorizava a me abrir e a falar, porque, sabe, eu sentia que havia espaço para me abrir. Ele não ia me rejeitar; ele aceitaria minha alma com todas as suas emoções, ternuras e preocupações, todas as suas obscuras aflições e misérias, angústias e alegrias, seu gozo e insana consciência da mortalidade, porque tudo isso também lhe ocorria. De fato, ao cabo de um ano terminamos dormindo juntos umas duas vezes. Fiz uma chupeta uma vez, pelo que me lembro, e, em certa ocasião, mais tarde, ele me chupou. Foi um ato de ternura e sem complicações.
YOUNG - Você experimentou algum tipo de ruptura com o seu círculo hipster ao envolver-se com gays e ao se assumir como tal?
GINSBERG - Está num poema (In Society) que li no julgamento de Chicago Seven. Trata-se de um sonho que tive em 1947, quando estava em Columbia. "Entrei na casa da cocktail partye dei de cara com três ou quatro maricasque conversavam no jargão das bichasTratei de ser sociável mas me escuteifalando com um deles no jargão hipster."Prazer em conhecer"- ele disse edesviou o olhar. "Hmm" - resmunguei. A casaera pequena e tinha um belichee aparelhos de cozinha:geladeira, armário, torradeira, cozinha;parecia que os meus anfitriões só tinhamespaço para dormir e cozinhar.O comentário que fiz sobre issoFoi compreendido mas não apreciado.Ofereceram-me refrescos, aceitei.Comi um pouquinho de carne pura; umGrande sanduíche de carne humana;percebi, enquanto o mastigava,de que também incluía um cu sujo. Chegaram mais convidados, inclusive umafêmea que pareciauma princesa. Olhou-me com raiva eno mesmo instante disse: "Não me apeteces",voltou o rosto e recusou-sea ser apresentada. Eu disse: "O quê!", cheio de indignação."Vá se foder sua estúpida com cara de merda!" O que atraiu a atenção de todos."Estou cagando para você, sua cadela narcisista! Comopode saber se nem sequerme conhece?", e prossegui num tom violentoe messiânico, enfim inspirado,e dominando toda a casa Naquela época, havia um grupo de bichas na área de Columbia que gostava de fazer coisas como ir ao Hotel Plaza para ouvir a cantora Edith Piaf, bichas interessadas em conseguir status e dinheiro. Tinham interesses culturais que remontavam a Lotte Lenya e faziam coisas em nome do estilo, mas ao mesmo tempo, eram demasiadamente aristocráticas e elitistas.
YOUNG - Você associava isso também a Columbia?
GINSBERG - Havia um ou dois tipos em Columbia que faziam parte desse tipo de coisa e não de uma homossexualidade whitmaniana, aberta e democrática, porque ser aberto, democrático e whitmaniano significava beijar todos os jogadores de futebol aberta e amigavelmente! E em público! Nem mais nem menos. Mas o rebanho de bichas enrustidas só se reunia para ir ao Plaza.
YOUNG - E beijar os jogadores de futebol era uma realidade ou apenas uma fantasia whitmaniana?
GINSBERG - Naquela época eu beijava Jack Kerouac que pertencia à equipe de futebol da Universidade Columbia. Era uma fantasia whitmaniana que, como todas as fantasias whitmanianas, era uma realidade prática. Naturalmente, naquela época, um cara da faculdade não podia fazer isso, mas hoje um cara da faculdade pode fazer esse tipo de coisa, sim. No primeiro ano que passei em Columbia, entre os 16 e 17 anos, eu mantinha em segredo a minha homossexualidade. Aos 17, uma coisa fez com que eu escapasse do autoritarismo cultural de Columbia. Acho que foi a prisão de um amigo muito querido, que conhecia bem o Jack. Nessa época, eu também me interessava por Rimbaud e Whitman e já conhecia Burroughs. Com Burroughs, eu passaria a conhecer Blake e Spengler ("A Decadência do Ocidente") e, naqueles dias, a semântica era importante, era importante separar as palavras dos objetos que representavam e não se deixar confundir por rótulos como gay ou bicha. Sair do ensino intermediário, da puberdade, do isolamento e tornar-me um adulto foi uma mudança total. O isolamento não era uma atitude enrustida da minha parte, eu não tinha estilo para isso. Era apenas timidez e medo da rejeição. Durante todo o curso intermediário estive secretamente apaixonado por uma infinidade de garotos - particularmente de um que freqüentava o curso intermediário do East Side, em Paterson, a quem segui até Columbia.
YOUNG - O nome dele começa com "R". É mencionado num dos seus poemas.
GINSBERG - Sim. Até certa época falei através de códigos. A convivência com Burroughs e Kerouac me permitiu uma abertura. Ambos tinham a mente aberta, eram internacionais, hip, Jacks Londons, Doutores Mabuses, tudo. Kerouac era muito divertido, extraordinário, um tipo heróico, uma figura inspirada de muitas idéias e atitudes. Teve muitos problemas; bebeu até morrer. E terminou, como tantos velhos escritores, tornando-se reacionário de um jeito engraçado, interessante e original; de uma maneira mais instrutiva do que negativa. Mas o que o diferenciava dos outros era o caráter, com "C" maiúsculo; era de uma enorme ternura, de uma sensibilidade compreensiva e confiante. E por isso é tão magnífico escritor e observador. Assumia tudo ternamente, como um cara jovem e sensível, até mesmo as minhas atribulações de bicha. E de fato, terminamos na cama.
YOUNG - Você quer dizer que, no caso de Jack, não era esta a sua praia?
GINSBERG - Ele estava confuso sexualmente. Tinha problemas com a fixação que nutria pela mãe e com a atitude dependente dela em relação a ele. Jogava futebol e gostava de garotas. Gostava de chupar bocetas e era obcecado por elas. Era isso o que o excitava: virilhas negras! Meio negras! Também gostava de garotos bonitos e nutria um apreço completamente novelesco e pessoal por mariconas - o que significava compartilhar uma humanidade comum, as emoções e até o erotismo, embora ele não achasse correto, no seu caso, participar do erótico. Como romancista, abriu-se para a arte homossexual e para algumas das suas posturas e estilos literários. Em alguns dos seus poemas, há muitos elementos sobre si mesmo e também todo tipo de exageros e afetações. Naquela época, chamávamos de high teacup uma referência ao gesto do dedo mindinho levantado. O que não posso deixar de dizer é que, algumas vezes, ele tinha sentimentos contraditórios mas acho que eu difamaria a sua natureza se o apontasse com um dedo acusador e dissesse: "Você é uma bicha!" Havia uma tendência entre os gays de colocar rótulos em tudo, inclusive neles mesmos, em vez de ver o amor sem nome que existe em todo mundo. Assim como havia uma tendência de colocar rótulos entre os heterossexuais masculinos, também entre os homossexuais havia uma tendência compensatória que consistia em reagir exageradamente contra isso e mostrar as plumas; de modo que ele estaria atento se o apontassem como bicha em circunstâncias nas quais ele não era. [Dirigindo-se a Peter Orlovsky, que se achava na outra extremidade da casa, de onde não podia ouvir a conversa]: Jack era bicha?
ORLOVSKY - Jack, bicha? Não, no menor sentido da palavra.
GINSBERG - Perfeito, no menor sentido da palavra. [A Peter] Todos nós dormimos com Jack em alguma ocasião.
ORLOVSKY - Certa vez estava tão bêbado que nem sequer conseguiu se levantar.
GINSBERG - [Rindo] Dessa vez ele gozou. Estávamos na casa Clellon Holmes, te lembras? Eu o chupei enquanto me davas o cu.
ORLOVSKY - E aquela vez na Second Street, te lembras? Jack estava muito bêbado e começaste a chupá-lo. Nem se levantou. E ele falava que tinha o pau tão pequeno, tão reduzido, enrugado e triste.
GINSBERG - Deu todo tipo de explicações. Mas há dez anos pediu que eu o chupasse. Por volta de 1964/65, dizia: "Estou velho, feio, com o rosto afogueado, tenho barriga de bebedor de cerveja, sou um bêbado e ninguém me quer. Não posso arranjar garotas; vem aqui e faz uma gulosa bem gostosa." Houve ocasiões em que se embriagava e insistia muito nisso. Nessa época ele já tinha uma barrigona de bebedor de cerveja, o rosto avermelhado e eu já não o via como o jovem elegante e romântico, o príncipe encantado das trevas, maldito e demencial do reino hippy spengleriano do pós-guerra. Ele fez com que eu enlouquecesse com todas aquelas idéias sobre corpo e sexo e foi uma das minhas primeiras lições de castidade. Há um verso de Yeats que diz "Terão os velhos amantes o tempo negado, sepulcro sobre sepulcro terão ao fim gozado." Na realidade, percebi que, com o tempo, todas aquelas pessoas que eu havia amado e com quem eu tinha desejado trepar foram para a cama comigo. Pode ter demorado vinte ou trinta anos, e talvez nós dois estivéssemos transformados numa ruína, carecas e desdentados, mas o desejo sempre encontrou o seu caminho, mesmo depois de dezenas de anos. Há uma lição nisso tudo. Uma vez que tenhas tido a capacidade de um pouco de desapego, uma vez que tenhas perdido o apego neurótico, obsessivo, então, quando as coisas flutuam suavemente, os objetos amorosos que certa vez adoraste vão à deriva levados pela maré e vêm na tua direção. E isto é demais, porque saem do mar horrivelmente apodrecidos. Um elemento na luta e na metafísica da liberação gay, que entretanto nunca foi considerado, é o que se refere à desilusão com o corpo. Não quero aprofundar demasiadamente o tema - apenas refiro-me à velha realidade dos 40, 50, 60, 70 e 80 anos e, por último, ao velho esqueleto sorridente, com sua lição espiritual sobre o desapego ao desejo neurótico que ficou para atrás. Acho que há um autêntico Eros entre os homens, que não depende do apego neurótico ou da obsessão; que é livre, leve, santo e luminoso - algo que de certa forma obtemos durante os nossos primeiros amores, fantasias e devoções. Alguns de nós têm a felicidade de poder se expressar e receber de um lado ou de outro. Mas isto, a exemplo da maré, só pode ocorrer quando se está livre para flutuar nela. Se há excesso de tensão neurótica pelo desmame, pela ruptura e mesmo pela liberação gay, isto faz com que tudo seja demasiadamente tenso e perde-se a leveza do amor. Em outras palavras, mais cedo ou mais tarde, o movimento de liberação gay terá de aceitar as limitações do sexo. Se considerarmos o sexo sob o ponto de vista hindu, budista, hare krishna e até mesmo cristão fundamentalista - uma advertência sobre o corpo e sobre o apego em si - então ele se torna interessante. Burroughs escreveu extensamente sobre o assunto, de tal maneira que os hippies e até mesmo os radicais acharam o tema muito interessante: o sexo como "hábito" - o sexo como outra droga, mais um produto cujo consumo o Estado estimula para manter as pessoas como escravas dos seus corpos; pois enquanto forem escravas dos seus corpos pode-se insuflar-lhes temores, sobressaltos, sofrimentos e ameaças para, dessa forma, mantê-las em seu lugar. Segundo ele, esse caminho conduz ao grande palácio da massa verde, ao jardim da massa verde, à armadilha da massa verde, onde todos chapinham numa substância verde. À medida em que envelheço, noto em minha barriga e no meu ventre que a agitação desses deliciosos apetites não diminui. Mas também tolero melhor a idéia de que, além do sexo, pode haver entre as pessoas outra maneira de se relacionar. Quando estive na Austrália, fiquei louco por um jovem e belo dobrista [tocador de dobro, instrumento hindu] que me acompanhou durante toda a viagem. Ele me procurava e me esperava o dia inteiro no hotel e colocou-se à minha disposição para tocar música comigo. Ele queria tocar mantras e logo descobri que se tratava de um intérprete magnífico de blues e me ensinou a tocar blues. Trepou comigo na primeira noite e fiquei fascinado diante do seu... ânimo de servir, sua disponibilidade, generosidade, seu temperamento e sentido de dever. Depois não quis mais trepar comigo, embora me amasse. Fui o primeiro homem com quem trepou. Como posso me relacionar com alguém que me deseja, mas não quer brincar com o meu pau e se nega a chupá-lo? No entanto, ele não se importava em dormir nu comigo na mesma cama, ao meu lado, porque me desejava e amava. Havia nisso algo de excepcional, mas isso era mais excepcional do que os meus desejos? E foi assim que me vi finalmente envolvido numa situação muito parecida à que esteve tão em moda no século 19, recomendada por Edward Carpenter e Whitman para pessoas que dormiam juntas. Chama-se carezza e trata-se de uma amizade platônica em que as pessoas dormem juntas nuas, se acariciam mutuamente, mas não há penetração e o sêmen é guardado por razões de yoga ou coisa semelhante. E foi o que fiz com aquele garoto. Nas duas semanas seguintes percorremos toda a Austrália. Percebi que a intensidade da minha devoção por ele, na região do coração - uma sensação cálida e dolorosa o coração - crescia, crescia, crescia e se transformava em algo mais desejável e narcotizante e passou a ser mais satisfatório levá-lo dentro de mim. E notei que ele correspondia da mesma forma e percebi que abrigava no peito essa mesma sensação cálida em relação a mim e que ela era intensificada pela nua castidade que praticávamos juntos. Quando subíamos ao palco e tocávamos em duo - eu cantava mantras, blues, tocava harmônica e ele tocava o dobro - a comunicação erótica entre nós tornava-se estática, delirante e incontível. Continuamente nossa paixão explodia em canções e olhares que excitavam o público, me excitavam e o excitavam. Então cheguei a sentir outro tipo de orgasmo, muito sutil e etéreo, que parecia ocupar a parte superior do meu corpo em vez da área genital. Apesar de ter sempre nutrido preconceitos contra esse tipo de sublimação, se a considero como uma espécie de sublimação primária, como impulsos sexuais sagrados, a experiência torna-se tão deliciosa que nenhuma razão moral pode obscurecê-la. Eu a recomendo, todos deveriam ter essa experiência. Podes te aproximar intimamente das pessoas que amas, mesmo que não queiram manter relações sexuais contigo. Podes ter algo como uma relação completa. Sob qualquer uma das formas que assuma, "Abaixo o sexismo!" Conheço muitos homens que pensam da mesma maneira. Talvez não cheguem a dormir juntos e nus, mas sentem e compartilham sentimentos de amor; no entanto, são completamente heterossexuais. Não me surpreenderia se isto fosse, na maioria dos homens, uma experiência universal, totalmente aceita, absolutamente comum, realmente compartilhada. A idéia de um companheiro é apenas o rótulo frágil, a vulgarização disso. Desde a tradição de camaradagem, de companheirismo da qual se fala na Bíblia entre David e Jônatas, até as relações físicas tais como as conhecemos, provavelmente são relações de amor intenso que os grupos de liberação gay - na sua fase política - ainda não aceitaram nem integraram como gratificantes manifestações de comunicação humana, satisfatórias para todos. Em outras palavras, há muitas tendências políticas e comunais que se abrem ao movimento de liberação gay à medida em que são incluídas mais e mais variedades de amor, além do genital, e pode ser que a ponte entre a liberação gay e liberação dos homens esteja no mútuo reconhecimento da ternura masculina, negada em ambos os grupos por tanto tempo.
YOUNG - Em Kaddish você diz alguma coisa relativa ao peso da sua homossexualidade: "Montes Cervinos de rola, Grandes Canhões de cu". Você usou essas metáforas porque a sua homossexualidade pesava demais?
GINSBERG - Quando eu era uma criança sensível coagida, que não podia tocar em ninguém ou expressar meus sentimentos, nem podia prever os incontáveis amantes que eu teria, a enorme carga de amor, a enormidade do escárnio em que eu entraria e acabava por tornar-me porta-voz da homossexualidade. Esse era o sentido de "Montes Cervinos de rola, Grandes Canhões de cu". Ter conseguido despir-me em público e estar na lista do "Quem é Quem" como consorte de Peter.
YOUNG - Em alguns poemas a sua homossexualidade flui muito naturalmente. As coisas ocorreram da mesma forma na realidade?
GINSBERG - Por volta de 1953, escrevi um extenso, grandioso e belo poema de amor para Neal Cassady, chamado "O Automóvel Verde". Expressei o meu amor. Não falei da parte genital e sim de todos e cada um dos outros aspectos: ternura, o abraçar-se de mãos dadas, viajar juntos e, por último, a separação. O poema seguinte em que voltei a ser explícito foi um pequeno poema escrito entre 1953/54, que se refere à "cultura da minha geração, de chupar rolas e verter lágrimas". Quando eu vivi na casa de Neal Cassady, escrevi um pequeno poema extraído de um verso de Whitman, sobre a relação sexual entre um noivo e uma noiva. Esse é um dos grandes momentos de Whitman. Na minha fantasia, fiz uma descrição do meu sonho amoroso e do que faria sexualmente entre Neal e a mulher dele, se a tolerância deles me permitisse. O momento crucial da abertura, em termos de manifestação, veio enquanto eu escrevia Uivo. "Deixem que os santos motociclistas dêem o cu e gritem de dor." Normalmente a reação do macho diante da idéia de ser enrabado seria como nesse novo filme de James Dickey, Deliverance, no qual supõe-se que é a pior coisa que poderia acontecer.
YOUNG - Há um verso em que você diz: "Quem realmente deseja ser enrabado?"
GINSBERG - Isso está em Kaddish, no poema "Mescalina". Para começar, quando se está sob o efeito da mescalina, quem deseja existir no universo? Quem anseia por um nome? Quem deseja ter um ego? E quem deseja ser bicha? Quem deseja ser machucado tomando no cu, quando, sabe-se, às vezes dói? Isso também faz parte da cena. Às vezes não sabemos de antemão. As coisas parecem ir muito bem e, de repente, tornam-se dolorosas. De modo que a pergunta é: quem realmente deseja ser enrabado? Numa extravagante apresentação de Uivo, percebi de repente como seria gracioso se, no meio daquele grande poema, eu dissesse: "Deixem que tomem no rabo.... e que gritem de prazer", em vez de "e que gritem de dor". Aí está a contradição. O público norte-americano espera que eu diga "dor", mas em vez disso digo: "e que gritem de prazer". O que é cem por cento verdade. Em outra passagem, tenho outro verso: "Quem chupou e foi chupado por esses serafins humanos, os marinheiros, e suas carícias de amor atlântico e caribenho", aliás numa referência a Hart Crane. Foi uma aceitação das realidades básicas do prazer homossexual. Isso foi um desabafo, na medida em que foi uma declaração pública de sentimentos, emoção e atitudes que antes eu não teria desejado que o meu pai ou a minha família soubesse, e que eu mesmo vacilei em tornar públicas. Mesmo limitada, foi uma válvula de escape: literalmente o sair do armário.
YOUNG - Alguma vez a crítica, ao falar de você, mencionou a sua condição de homossexual?
GINSBERG - Sim, Norman Podhoretz, na Partisan Review, atacou violentamente toda a literatura beatnik: "Esses boêmios arrogantes". Disse que apesar de a minha poesia não ser de todo má, sua maior força repousava na "declaração pública" da minha homossexualidade ser, "de certa forma, questionável e insistente". Bicha em todas as circunstâncias; o que, embora honesto, não era tão interessante do ponto de vista social. Foi um golpe baixo, ao mesmo tempo um reconhecimento e uma rejeição, sem mencionar que ele chama Kerouac de "bruto". Walt Whitman é muito importante no que diz respeito à ternura masculina. Nunca foi considerado um ídolo ou um profeta, nem pelo gay lib, tampouco pela esquerda radical apesar de algumas declarações muito precisas que fez sobre o tema da liberação masculina; isso está em Democratic Vistas, no qual fala sobre a probabilidade de a competição materialista nos Estados Unidos transformá-los na lendária "maldita entre as nações", algo que já pode ser constatado atualmente. É possível que "estejamos já a caminho de um destino, um status, equivalente no mundo ao dessa lendária nação maldita". Ele diz: "A estreita e amorosa camaradagem, o afeto pessoal e apaixonado de um homem por outro homem - o qual, embora seja difícil de definir, sustenta os ensinamentos e os ideais dos profundos salvadores de cada nação e época, e que parece prometer, uma vez desenvolvido, cultivado e reconhecido cabalmente nos costumes e na literatura, a esperança e a segurança no futuro desses Estados - serão então expressos em sua totalidade". A seguir, numa nota de rodapé, diz: "É no desenvolvimento, na identificação e preeminência generalizada desta fervorosa camaradagem (...), na qual busco o equilíbrio e a compensação à nossa democracia americana materialista e vulgar e, conseqüentemente, sua espiritualização. Muitos dirão que é um sonho e seguirão os meus postulados, mas espero confiante o momento em que percorrerão, como vibrações subterrâneas, como miríades audíveis e visíveis através dos interesses mundanos dos EUA, correntes de amizade masculina, terna e amorosa, doce e pura, forte e eterna, elevada a graus desconhecidos, não apenas dando colorido ao caráter individual, nas também tornando-a emocional até um ponto sem precedentes, carnal, heróico e refinado, nas conservando as relações mais profundas com a política geral. Digo que na democracia se origina essa camaradagem amorosa, como sua alma gêmea indispensável, sem a qual seria incompleta, inútil e incapaz de completar-se." Depois, o prefácio da edição de 1876 de Leaves of Grass acrescenta uma grande nota de rodapé. "Poderíamos acrescentar - já que estamos aqui, farei uma confissão completa. Também publiquei Leaves of Grass para despertar e pôr em movimento o coração de homens e mulheres, jovens e velhos (meus leitores futuros e atuais) intermináveis correntes de amor e amizade, vivas e palpitantes, diretamente deles até mim, agora e sempre. A este desejo terrível e reprimido (sem dúvida presente no funda da alma da maioria dos homens), a este apetite pela afinidade nunca satisfeito, a este oferecimento infinito de afeto, a esta camaradagem universal e democrática, a este velho, eterno e, não obstante, sempre renovado intercâmbio de adesões, tão apropriadamente simbólico da América, brindei neste livro, abertamente e sem hipocrisia, à expressão mais sincera... A literatura foi, desde sempre, a guardiã formal e convencional da arte e da beleza, e de uma certa manifestação de amor estreita, mesquinha e limitada. Afirmo que o laço mais sutil, mais doce e mais seguro entre `eu´ e `ele´ ou `ela´, que consigo estabelecer nas páginas de Calamus e em alguma outras obras da minha lavra - embora nunca nos vejamos, mesmo que tenham se passado muitos anos - deve ser amoroso e pessoal. E estes - sejam poucos ou muitos - são, de qualquer maneira, meus leitores embora não sejam - e nunca serão - meus melhores e mais notáveis poemas. "Além disso, por importantes que sejam, em meu propósito de expressar meus sentimentos pela humanidade, o significado especial da coletânea de Calamus em Leaves of Grass (o mesmo sucede com Drum Taps) repousa principalmente em seu Sentido Político. Na minha opinião é graças a um fervoroso e consciente desenvolvimento da camaradagem, ao belo e saudável carinho do homem pelo homem, latente em todos os jovens do Norte e do Sul, do Leste e Oeste é que, direta ou indiretamente, os Estados Unidos do futuro (jamais o direi com a freqüência desejada) deverão ser realmente soldados, consolidados e temperados numa Unidade Viva." Por isso, acredito ser este o caminho para a liberação gay, para a liberação dos homens e para todo o resto: a liberação de sentimentos e liberação da ternura, que foi o mais reprimido. YOUNG - Alguns ativistas do movimento gay, que se autodenominam "efeminados", diriam que este tipo de romantização do amor masculino é misógino, mais uma expressão da supremacia masculina, na mesma linha do amor grego; porque a sociedade grega, que tolerava e nutria a homossexualidade, era, em seus fundamentos e raízes, uma sociedade de supremacia masculina. GINSBERG - Não sei. Não creio que com o passar do tempo seja assim. Parece-me um sentimento muito genuíno. No caso de Whitman, não parecia interferir em suas relações com as mulheres, porque mantinha amigas que sentiam como ele e que eram, suponho, lésbicas casadas e donas de casa. Whitman dizia que a relação entre homens, a aceitação entre homens não foi desenvolvida na América. Hoje eu diria que foi reprimida pelo espírito de competição e rivalidade característico da economia capitalista. A relação potencial com uma fraternidade comum seria pelo menos a ternura entre irmãos. Essa ternura foi negada ao branco do sul e é a causa da sua incapacidade de relacionar-se com homens e mulheres. Ainda não sabemos qual é o alcance da formação de laços mais fortes entre homens, ou do fato de fazê-los conscientes desses laços e de sua aceitação como significado político. Qual é a alternativa? Destacar o espectro do amor grego e suas implicações antifeministas e apontar seus pontos de contato com o comportamento dos beatniks: medo das mulheres, pelo que posso perceber. Mas também é preciso encarar a questão como uma conseqüência real e natural de emoções produzidas pelo medo e pelas restrições próprias da situação em que crescemos: desconfiança, ódio, paranóia e competição entre os homens em vez de cooperação; o mesmo vale entre homens e mulheres. Whitman era muito consciente e estava sensibilizado por tudo isso, por seu amor reprimido pelos homens, porque não podia manifestá-lo abertamente e em público. Teve de encontrar uma maneira de expressar seu "afeto". Acho que uma liberação emocional entre os homens conduziria também a uma liberação entre homens e mulheres, porque eles não teriam de ser mais homens em sua relação com as mulheres, no sentido de serem fortes e conquistadores. Poderiam ter uma relação muito mais relaxada, na qual não estariam constantemente obrigados a sentirem-se sexuais e sim apenas amigos ou afetuosos. A amizade não sexual entre homens e mulheres ainda é considerada imprópria para um homem. O incremento de amizades puramente emotivas e não genitais com homens poderia também significar um progresso, uma abertura na direção de amizades puramente criativas e não genitais com mulheres. Qual é a alternativa que os "efeminados" propõem? Além de dizer: "Não, não deves te sentir bem com o teu próximo, os heterossexuais não devem incrementar relações emotivas com outros heterossexuais"? Na realidade, estão defendendo um clube exclusivo, mas já tivemos esse clube exclusivo de outra maneira, com a história machista protagonizada por Hemingway ou com a história machista do tipo musculoso e militar. Afirmo, a exemplo de Whitman, que o antídoto para esses cenários machistas hemingwayanos e militares é o incremento da ternura honesta e emotiva e um reconhecimento da ternura como base da emoção genital ou não genital. Isto poderia ser resolvido através de mais camaradagem entre os homens, com uma democratização da amizade, de modo que não se limitasse exclusivamente a uma amizade entre homens e mulheres baseada no sexo. Acho que isto solucionaria grande parte do conflito machista e suas contradições. Acho também que uma das definições de "viadagem" ou homossexualidade é a de que ela ocorre como uma situação inerente, desde muito cedo, na qual tanto o fluido genital como o emotivo, orientam-se mais na direção dos homens do que na das mulheres, como seria natural. Penso que o objetivo da liberação gay é aceitar essa diversidade de incremento como algo viável e, conseqüentemente, dar-lhe espaço. Do contrário, o que é um homossexual? A menos que você queira ter uma frente de liberação homossexual que proponha aos homens um desenvolvimento fora do homossexualismo, numa relação mais igualitária e democrática, com homens e mulheres. Mas acredito ser possível afirmar: deixe que a flor mais pura manifeste o seu verdadeiro propósito, que é o de orientar-se na direção da luz; e deixe que a flor mais retorcida manifeste, em sua inclinação, seu propósito de orientar-se na direção da luz. A flor retorcida tem de rodear as pedras para buscar a luz. Mas o propósito é chegar à luz do amor, embora a flor reta cresça diretamente rumo ao amor e à luz. Das duas uma: ou você tem o amor-humano-biológico-condicionado, ou um movimento de liberação gay que deseja liberar e tornar públicas estas emoções. Uma das coisas que o movimento poderia promover seria derrubar a barreira de medo que as bichas levantam em relação às mulheres. Botar abaixo a barreira entre homem e homem, o que provavelmente levaria ao mesmo resultado. Outro ponto que eu gostaria de mencionar é a possível e tradicional objeção dos efeminados acerca das relações "sexistas" entre homens mais velhos com homens mais jovens. Vi em Berkeley manifestos sobre o assunto. Mencionei a questão a Gavin Arthur, falecido este ano em São Francisco. Era um cavalheiro, de maneiras delicadas; era astrólogo, um mestre, um guru e neto do presidente Chester Arthur. Neal Cassady trepou com ele algumas vezes, quando buscava refúgio em São Francisco depois de suas aventuras com Kesey pelas estradas de ferro. E Gavin Arthur já havia trepado com Edward Carpenter, e Edward Carpenter com Walt Whitman. De certo modo, em linha de transmissão, é um fato interessante a ser registrado na mitologia. O herói heterossexual de Kerouac também trepou com alguém que, por sua vez, trepou com Whitman e recebeu a Tradição Sussurrada (com "T" e "S" maiúsculos) daquele amor.
YOUNG - O herói heterossexual de Kerouac? A quem você se refere?
GINSBERG - Neal Cassady, Dean Moriarty, o que trepou com Gavin Arthur que, por sua vez, trepou com Edward Carpenter que, por sua vez, trepou com Whitman. E eu trepei com Dean, de modo que....falando nessa linha de transmissão... O que me foi sussurrado nessa linha de transmissão por Gavin Arthur, sobre a relação encantadora entre homens mais velhos com jovens, a exemplo do que ocorria na Antigüidade, é uma coisa que você entende melhor à medida em que envelhece, uma coisa da qual você não precisa se envergonhar, e nem contra a qual precisa ficar na defensiva, e sim uma coisa a ser estimulada - uma relação saudável e não uma dependência neurótica e doentia. O principal é a comunicação. Os mais velhos têm sabedoria, experiência, história, memória, informação, referências e também poder, dinheiro e tecnologia. Os mais jovens têm inteligência, entusiasmo, sexualidade, energia, vitalidade, mente aberta, atividade física - todas estas características, além dos conhecimentos doces e puros da juventude - e ambos se beneficiam do intercâmbio. A coisa converte-se em algo mais do que uma relação sexual; passa a ser um intercâmbio de talentos, sucessos e de dons naturais. Os mais velhos ganham em vigor, frescor, vitalidade, energia, esperança e alegria por meio dos mais jovens; e os mais jovens ganham em experiência, conselhos, ajuda, consolo, sabedoria, conhecimentos e ensinamentos através da sua relação com os mais velhos. A exemplo do que se verifica em outras relações, a combinação de antigo e novo é funcionalmente proveitosa. Isso difere muito de ser "sexista", no sentido de que o interesse direcionado ao jovem não é totalmente sexual; vale mais pela relação em si e pela sabedoria a ser obtida. Na teoria de Edward Carpenter e Whitman, o mais velho chupa o pau do mais jovem e dessa forma absorve o seu magnetismo elétrico e vital -segundo uma teoria encantatória e teosófica do século 19. É uma coisa que eu, como sou mais velho, experimento como um ato natural. Quando você trepa com alguém mais jovem, você ganha um pouco de vitalidade, de frescor e de auto-estima.
YOUNG - Você referiu-se a Whitman e Carpenter e em alguns dos poemas menciona García Lorca. Para mim foi uma descoberta muito recente o fato de que esses escritores famosos fossem gays como eu, o fato de que eu tivesse este laço de união com eles. Tenho curiosidade em saber como você descobriu isso.
GINSBERG - Em Ode a Walt Whitman, Lorca fala do sol "que canta nos umbigos dos rapazes que jogam beisebol sob as pontes" e esta imagem contém tanta beleza erótica que imediatamente percebemos que ele entendia, estava envolvido nisso, havia realmente experimentado aquele sentimento. Algum tempo depois, encontrei uma pessoa no Chile que o havia conhecido e me disse que ele gostava de rapazes. De fato, alguma coisa relacionada com um garoto pode ser a causa do fuzilamento de Lorca. Não acho que seja um fato a aparecer em nenhuma das suas biografias. Esta epifania do sexo é completa nos livros de Whitman; sua rapsódia homoerótica inclui uma descrição de como deitou-se com um amigo - na parte 5 de Song of Myself: I mind how once we lay such a transparent summer morning,How you settled your head athwart my hips and gently turn´d over upon meAnd parted the shirt from my bossom-bone, and plunged your tongue to my bare-stript heartAnd reach´d till you felt my beard, and reach´d till you held my feet.
YOUNG - Isso não é ensinado no curso secundário.
GINSBERG - A escola é de todas as maneiras irrelevante para a poesia, e para qualquer coisa. Quero dizer que a escola é uma herança do século 19. A poesia remonta a 15000 antes de Cristo. Veja o poema "We Two Boys Together Clinging": We two boys together clinging.One the other never leaving,Up and down the roads going, North and South excursions making,Power enjoying, elbows stretching, fingers clutching,Arm´d and fearless, eating, drinking, sleeping, loving.No law less than ourselves owning, sailing, soldiering, thieving, threatening,Misers, menials, priests alarming, air breathing, water drinking, on the turf or the sea-beach dancing,Cities wrenching, ease scorning, statutes mocking, feebleness chasing,Fullfilling our foray Em "No Labor-Saving Machine", ele escreve: (...) But a few carols vibrating through the air I leave,For comrades and lovers. E Whitman diz em "A Glimpse": A glimpse through an interstice caught,Of a crowd of workmen and drivers in a bar-room around the stove late of a winter night, and unremark´d seated in a corner,Of a youth who loves me and whom I love, silently approaching and seating himself near, that he may hold me by the hand,A long while amid the noises of coming and going, of drinking and oath and smutty jest.There we two, content, happy in being together, speaking little, perhaps not a word. Perfeito! E absolutamente real. Isso é a vida. Inclusive a vida heterossexual. É a realidade indescritível das relações humanas na América do Norte. Não podemos chamá-la de gay.... Tem a ver com o que eu dizia antes, em relação ao que deve ser... O afeto de que Whitman falava, agora latente em todos nós, e que está pronto para aflorar sabe lá Deus em quantas pessoas nos últimos dez anos, quantos rapazes com quem me encontrei e com quem me sentei e com quem enlacei as mãos e pelos quais nutri sentimentos de amor e vice-versa, na universidade ou em qualquer outro lugar e que nada teve a ver com viadagem entre aspas, nem mesmo com o que se chama de gay. O gay tem excesso de categoria!
YOUNG - Pelo que você disse antes, isso aconteceu até certo ponto entre os boêmios e os hipsters...
GINSBERG - Ah, isso existe desde o homem de Cromagnon!
YOUNG - Parece-me que há atualmente uma tensão entre os gays freak (gays hippies) e os gays straight (gays conformistas). Há pessoas no movimento de liberação gay que dizem "tenho mais coisas em comum com um heterossexual hippy do que com um gay de cabelo curto e alcoólatra. E há outros gays que dizem "devo minha lealdade a outros gays e a cultura freak é demasiadamente machista".
GINSBERG - Senti isso na tradição homossexual sincera, populista, humanista, meio heterossexual, whitmaniana, boêmia, livre, afetuosa como verificamos em Sherwood Anderson, Whitman e talvez um pouco em Genet, em oposição à bicha louca meio histérica, privilegiada, exageradamente efeminada, mexeriqueira, endinheirada e money-style-cloth-conscious [consciente do estilo e da roupa cara]. Não há nada mais ancestral, e em certo sentido mais respeitável, do que o velho travesti xamanista que vemos fazendo o trottoir na Greenwich Avenue, ou mesmo entre os índios norte-americanos a figura do xamã, que se veste de mulher e até arranja marido. Há alguma coisa de muito ancestral e encantador na jovem bicha louca; uma companhia fantástica, de expressividade e individualidade absolutas - às vezes chegamos a recear que se trata do exterior histérico e escandalosos de alguém à beira de um colapso nervoso e que terminará na igreja ou algo parecido. Mas nela há também algo de disciplinado, frívolo, ressentido e de complexo anal. Quando eu era mais jovem, a divisão era feita entre os beatniks sujos de coração grande - não posso me definir exatamente como uma bicha... Homossexual? Tenho usado este termo, mas nunca encontrei a palavra justa... Inúmeros amantes, amantes gnósticos sem nome - e as bichas monopolizadoras, endinheiradas e privilegiadas. Era esta a diferença.
YOUNG - Você encontrou os dois tipos nos bares gays de Nova York?
GINSBERG - Decididamente havia representantes dos dois grupos. Havia muitos desbocados, divertidos e velhas bichas marujas dos anos 20; também todo tipo de executivos publicitários de boca franzida, paranóicos, assustados, conservadores, reacionários e de cabelo curto. E tudo o mais que vier à tua imaginação. Há um grupo de bichas que depende do dinheiro, é afetado, chique, privilegiado e exclusivo, de alta classe monopolizadora e geralmente acompanhado de más intenções, maus modos e amor desleal. Prefiro a homossexualidade na qual os amantes são amigos por toda a vida, com direito a muitos amantes e amigos

terça-feira, 26 de maio de 2009

SWEET - FANNY ADAMS


MAIS UM MAGNÍFICO DISCO DESSA BANDA QUE NÃO TEVE O DEVIDO RECONHECIMENTO

SWEET - DESOLATION BOULEVARD 1974



GLAN? HARD? NÃO! É SIMPLESMENTE ROCK´N´ROLL E MAGNIFICO

INCREDIBLE HOG - SAME 1973


SENSACIONAL HARD ROCK

BLACKFOOT SUE - NOTHING TO HIDE




SOM SETENTA DE ALTA QUALIDADE!

RICK DERRINGER - PALLADIUM NY 1993


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Rick Derringer - guitar, vocals
Benjy King - keyboards, vocals
Jimmy Wilcox - drums, vocals
Donnie Kisselback - bass, vocals
Guest: Ian Hunter - vocalsGuest: Dr. John - guitar, vocalsGuest: Edgar Winter - keyboards, vocalsGuest: Lorna Luft - vocalsGuest: Daryl Hall - vocalsGuest: John Oates - vocalsGuest: Mickey Curry - drumsGuest: T-Bone Wolk - bass

DIXIE DREGS C/STEVE MORSE - LIVE 1979


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GRAVADO NA PHILADELPHIA 1979
Rod Morgenstein - drums
Steve Morse - guitar
Allen Sloan - electric violin
T. Lavitz - keyboard
Andy West - bass

MARAVILHA

GRATO HELLRAISER..
VOU FAZER UMA TATOO KAKKAKAKAK
MUITO LOUCO!

ENTREVISTA COM VENTANIA


Nesta entrevista realizada por Karine Rodrigues para o site "Boa Noite BH", Ventania conta um pouco da sua trajetória como músico, desde os tempos de artista de rua até o lançamento do primeiro trabalho da banda, o CD “Só para Loucos”. Fala também das suas influências, inspirações e a visão que tem deste mundo doido.


– Qual o show mais marcante para a banda?


Ventania: Eu não sei te responder porque tiveram shows muito legais, muito loucos. Alguns que achamos que seriam fracos, mas de repente, “bommm”, apareceu muita gente. Muitos shows foram marcantes.


– Um fato engraçado:


Ventania: Nossa, uma vez eu fiz um show em Ouro Preto. Me empolguei, saí pulando, vacilei e caí do palco, capotei lá embaixo. Ainda bem que poucas pessoas viram porque eu caí no escuro.


– Qual a música mais importante na carreira de vocês?


Ventania: A música que eu curto é “Micróbio”, tem a minha cara. (risos) Ela fala muito da minha vida, como foi minha vida até chegar aqui. Eu nasci e me criei na estrada.


– Como a banda surgiu?


Ventania: A banda Hippie, que é uma banda para todos os malucos de bom coração, de sensibilidade, surgiu do nada. Eu fiquei dez anos tocando sozinho, passando o chapéu. Tocava mais ou menos uma hora e depois passava o chapéu. Aí falava: olha galera, ajuda aí que eu não tenho nada na barriga pra fazer cocô. Aí as pessoas me ajudavam e davam uma bela gargalhada. Tinha gente que dava muito dinheiro, naquela época eram cruzeiros, depois foram os reais e fui vivendo. Conheci muita gente legal na estrada, muitos músicos legais. Conheci o pessoal da banda em São Tomé das Letras, onde moramos. O primeiro show foi aqui em Belo Horizonte e nós nem ensaiamos, foi no Lapa Multishow. Tinha muita gente, foi o nosso primeiro som. Foi muito louco. Daí para frente fizemos vários shows e agora temos o cd “Só para loucos”. Estamos gravando o segundo.


– O que é o sucesso para você?


Ventania: Eu não quero nem pensar nisto, eu quero é curtir, abraçar todo mundo. Quando era criança, escrevi em um caderno que tenho até hoje na casa da minha avó: eu quero ter os braços bem cumpridos, aí me desenhei com os braços bem grandes, para abraçar todo mundo que eu amo. Com a música, meus braços cresceram e eu pude abraçar bastante gente. Ainda quero abraçar todo mundo. E eu acho que sucesso é isto, a alegria de estar com a galera.


– O sucesso é passageiro?


Ventania: Sei lá, eu quero é cantar muitas músicas, quero cantar a vida inteira e compor para todos os malucos. O legal é que todo mundo está gostando. Outro dia eu encontrei com um engenheiro e perguntei para ele: Porque você gosta da minha música? Ele falou que gosta porque uma vez tentou ser hippie, e que nunca teve coragem, além disso a família dele nunca deixou. Ele se identificou com a música e é isto que eu acho legal.


– Você tem algum ídolo?


Ventania: Eu tenho um ídolo, Jesus Cristo! O primeiro hippie, assim barbudo, cabeludo… eu sigo à ele.


– A banda teve apoio de alguém?


Ventania: Não, só da grande malucada hippie, maluco de estrada mesmo. Eles são o meu apoio, minha força, minha família. Minha família é muito grande sabia?


– O que vocês acharam do show hoje?


Ventania: Muito legal, uma galera muito bacana. Inclusive este lugar é muito chic, eu gosto é de cantar em rodinha de fogueira, minha vida foi tocar na estrada, nas praças. Muitas bandas começaram a gravar minha música “Cogumelo azul”, então eu resolvi gravar também. É minha música! Ela ficou mais de vinte anos sem registro, mas agora ela é registrada, editada. É mais protegida agora. Eu nem sabia destas burocracias, nunca tive documento, nunca fui ligado a estas coisas. Nunca votei e nem sei se vou votar. Eu não nasci para estas coisas.
De onde surgiu o nome do cd?

Ventania: Nosso cd é totalmente de produção independente porque nós nem conhecemos como é a produção com gravadoras. Eu gravei este cd em casa, por brincadeira. Só para loucos! Eu pensei. Nunca imaginei se alguém acompanharia a banda. Se os loucos comprarem o cd está bom. Agora estou fazendo o meu cd de papel, mão a mão. Ao invés de ganhar um cd de ouro, ganhei um cd de pedra em São tomé. Estou curtindo muito este “lance” de passar mão-a-mão.


– Qual o estilo e o ideal da banda?


Ventania: O estilo da banda é o rock “estroncho” e nosso ideal é só cantar para os loucos, mas acho que todo mundo está curtindo. Galera, muita paz no coração, vamos nos unir porque podemos cantar uma só grande canção.“Senhoras e Senhores desse mundo louco e virtual que corrompe nossas cabeças! Sou um fugitivo, andarilho e compositor em busca da paz e virtudes que a vida proporciona para nós desfrutarmos a cada pôr-do-sol junto à Natureza. Estou na estrada há muito tempo, levando minha mensagem através das minhas canções, aos jovens e pessoas de cabeça e mente livre! …Só para Loucos…Caretas não“!

VENTANIA - SÓ PARA LOUCOS


O VELHO REPRESENTANTE DA CONTRACULTURA.
SÓ PARA OS RAROS!
Quem é Ventania?Ventania, nome artístico de Wilson da Silva (Pariqüeraçu, 21 de agosto de 1962), é um cantor andarilho cuja inspiração vem do movimento hippie, dos anos 60 e 70. Atualmente mora em São Thomé das Letras. Uma das mais importantes influências musicais de Ventania é o cantor e compositor Raul Seixas, o "Raulzito", marco histórico do rock nacional e da mistura com influências "alternativas".

JANIS JOPLIN - PEARL


Seria possível Janis, uma senhora de 65 anos? Imaginávamos Jagger, um senhor de 60 anos requebrando loucamente! E Tina Turner aos 68?! Uau! E Ike Turner morrendo de overdose aos 76?!!!
Acredito que pessoas como Janis, Hendrix, Morrison (será que ele morreu mesmo?) tornam-se lendas e morrem jovens pelo simples fato de pegarem todo seu potencial, toda a inteligência, o brilhantismo, a capacidade de uma vida inteira e utilizarem de forma ultraconcentrada em pouquíssimo tempo. Morrem de overdose de sua própria capacidade.
Janis não poderia ser uma velha. Não poderia ter chegado aos 40, nem mesmo aos 30. Hendrix também não. Marilyn, James Dean, Rimbaud, Cazuza, Renato Russo… Gente assim não envelhece. Difícil viver tão intensamente e durar muito.

IAN GILLAN - MR UNIVERSE

IAN GILLAN - FUTURE SHOCK ED ESPECIAL COM BÕNUS


DISCO FANTÁSTICO. REALMENTE UM CLASSIC ROCK
AGRADECIMENTO E SENHA
laserpienteblanca.blogspot.com

IAN GILLAN - HAMPTON BEACH


UM DOS MELHORES VOCALISTAS DO ROCK

segunda-feira, 25 de maio de 2009

FANNY ADAMS - SAME 1971


UM DISCO FANTÁSTICO. BAIXE CORRENDO

KOSSOF - KIRKE - TETSU - RABBIT


UM GRANDE ALBÚM COM MESTRES DA MÚSICA

BLACK CAT BONES - BOMBED WIRE SANDWICH


UM DISCO MARAVILHOSO COM ROD PRICE NAS GUITARRAS

ARMAGEDDON - SAME 1975


FOGHAT - VETERANS MEMORIAL COLISEUN NEW HAVEN


FOGHAT - ORPHEUM THEATER BOSTON


FOGHAT - LIVE


UM DOS MELHORES ALBUNS AO VIVO QUE CONHEÇO. MÁGICO!

domingo, 24 de maio de 2009

PROTESYS - METAL MADE IN CUBA



Según el diccionario, se le llama prótesis a la ''pieza o aparato que reemplaza un órgano o parte de él'', y resulta lógico que pensemos en cuál será la porción del cuerpo que es capaz de sustituir una banda de rock que se nombra Protesys. Sin embargo, después de escuchar el primer demo grabado por este piquete, tengo la certeza de que su música reemplaza ese músculo que llamamos lengua. Y es que los compases y frases que emergen del disco "Censura" tan solo pueden surgir de una lengua rebelde. Para conocer de cerca a la banda Protesys, Trastienda musical (TM) le hizo una entrevista.TM - ¿Cuándo surgió Protesys?Protesys - Protesys surge como proyecto oficial el 25 de septiembre de 2005.

TM - ¿Por qué decidieron cultivar esta mezcla de metal power trash con hard-core?

Protesys - Cuando los que seríamos los futuros integrantes decidimos armar el piquete, las similitudes en los gustos musicales fueron claves para lograr el empaste idoneo y seguir una línea de trabajo, pues a la hora de aportar y dar ideas nuevas en cuanto a la composición de un tema es muy importante que todos estemos identificados con el estilo y, claro, si este es factor común de los miembros esto será muy favorable pues todos pisaremos el mismo territorio.

TM - Siempre tenemos ídolos que seguimos, incluso de manera inconsciente ¿Cuáles son los que han dejado su huella en la música de Prótesys?

Protesys - Así es, toda banda tiene ídolos y esto marca una influencia en la música que se hace, en nuestro caso debemos decir que tenemos varias y personalmente muchas mas. Dentro de las principales estarían los reyes de power thrash, Pantera ha sido y será toda una escuela del metal clásico moderno, también incluiríamos a Slayer, así como lo que nos ha aportado Machine Head con su Groove y Sepultura a lo Max Cavalera...en cuanto a las vertientes modernas le debemos a Lamb of God, Chimaira y otras mas.
TM - ¿Quiénes integran la banda en estos momentos y quiénes han pasado por ella?

Protesys - El formato de la banda en un principio estaba compuesta por 5 integrantes: Michel Hernández (Vocalista),Yuniesky Castillo (Guitarra y Vocales),Harold Moreno (Bajo),Darian Paradela (Drums) y Marcos del Risco(Guitarra), quien abandonó la banda por problemas personales hace casi 2 años, por lo que podemos decir que mantenemos nuestra formación casi intacta.

TM - Si tuvieran que mencionar tres presentaciones que la banda no ha podido olvidar en estos tres años ¿Cuáles serían?

Protesys - A pesar de los pocos años de experiencia en Festivales y conciertos en nuestro país lo cierto es que el grueso de las presentaciones del grupo ha sido en este 2008 que ya casi termina y podríamos mencionar el Festival Rock de la Loma en Bayamo, en el cual nos dimos a conocer completamente en el oriente del pais; el Festival Sonidos de la Ciudad de Camagüey el cual fue nuestro despunte como banda de metal y mas cerrando el mismo. Finalmente nuestra consagración en la participación en el Ciudad Metal dándonos a conocer en la escena metalera cubana en general y que nos abriría las puertas en la participación en otros eventos ya en el occidente del país.

TM - Ahora quiero que conversemos acerca de ''Censura'', el primer demo que publica Protesys... ¿Cuándo y cómo fue el proceso de grabación? (¡Descárgalo aquí!)

Protesys - Para nadie es secreto las dificultades que sufren las bandas cubanas para lograr la producción de un álbum, nosotros por supuesto tampoco fuimos la excepción. ¨Censura¨ es nuestra primera entrega y su proceso de grabación comenzó en el primer tercio de este año y culminó en el mes de julio, agregar que a pesar de la excelente aceptación del disco nosotros no hemos quedado conformes en muchos aspectos relacionados con el resultado final del mismo y claro, esperamos echar por tierra en el próximo las deficiencias que tuvo este.

TM - ¿Por qué Protesys canta en español cuando la mayoría de las bandas cubanas lo hace en inglés?

Protesys - Esto es un aspecto de suma importancia para nosotros, vivimos en un país de habla hispana y cuando se quiere expresar o transmitir una idea, será mas convincente y claro que el público la digiera en español. A Protesys por su imagen, perspectiva y proyección le va como anillo al dedo este detalle pues la letra escrita en castellano es la impulsora máxima en sus presentaciones.

TM - Hay un elemento importante: cuando se canta en inglés el mensaje puede quedar enmascarado, pero en español algunos pueden decir que se expresan ''ideas peligrosas'' ¿Están dispuestos a asumir ese riesgo?

Protesys - Precisamente ése es nuestro objetivo, que el mensaje llegue de forma clara y precisa!!, sin tapujos ni apantallamientos innecesarios. Nosotros consideramos que lo que decimos y expresamos para nada representan ¨ideas peligrosas¨, si alguien considera que decir verdades es un pecado pues seremos eternos herejes pues lo hacemos sin ánimo de ofender a nada ni a nadie y sí con muchos deseos de ser constructivos como personas en nuestra sociedad que tanta falta le hacen actos reales y concretos.

TM - ¿Qué les dicen a los que descarguen el demo? ¿Qué temas se abordan en las canciones?

Protesys - Nuestros temas abordan la convivencia y dificultades del freeky común en Cuba. País que todavía se resiste a coexistir con el género mas universal, en general nuestros textos invitan al oyente a reflexionar en cuanto a los numerosos tabúes que se nos imponen para disfrutar del género y cómo se somete todavía a pocas, pobres, o nulas promociones al rock. Nuestro mensaje siempre será que estas negativas solo enfrentándolas lograremos eliminarlas y que tratar de silenciarnos solo traerá mas lucha en favor de los cada vez mas numerosos seguidores del metal en Cuba.

TM - ¿Qué está preparando Protesys para el año 2009?

Protesys - Para el 2009 es posible que tengamos una nueva entrega pero sin tener ninguna presión encima por lanzar un álbum lo antes posible, no, para nada,.... dejaremos que las cosas fluyan e iremos incluyendo ideas nuevas para la próxima entrega.

TM - Muchas gracias por aceptar la invitación de Trastienda musical, no solo para conversar sino también para ofrecerles a nuestros visitantes la descarga del demo ''Censura''....

Protesys - Muchas gracias a ti y éxitos a Trastienda musical.

sábado, 23 de maio de 2009

CAPTAIN BEEFHEART - TROUT MASK


ARNALDO BAPTISTA - LOKI


ARNALDO BAPTISTA FALA SOBRE A TROPICÁLIA

Ana de Oliveira: Arnaldo, como foi pra você conhecer Caetano e Gil? O que lhe atraiu neles? Arnaldo Baptista: Caetano não me influenciou tanto quanto Gil. Caetano era mais Beat Boys. Com Gil a gente ensaiava mais. A gente conseguiu fazer com que o contrabaixo fosse mais valorizado na música. Então a nossa música passou a parecer mais elétrica. Na verdade, sempre houve guitarra na música. Mas o que mudou tudo foi o contrabaixo que os Beatles e os Rolling Stones criaram, aquelas caixas pesadíssimas… A gente não colocou a guitarra na música, e sim o contrabaixo.

Ana: Como você, que tocava rock, se sentiu tocando “Domingo no Parque”, uma cantiga de capoeira?
Arnaldo: Pode parecer estranho, mas conhecíamos música brasileira, mais samba, uma coisa distante, e não compúnhamos muito. Quando encontramos Gil, fazendo aquelas posições no violão, aí sim demos continuidade à nossa criação através de baianos, astecas, incas, maias… Tínhamos mais a ver com o Nordeste. O paulista era muito europeu. Caetano e Gil nos mostraram um lado mais abrangente, a América do Sul. Assim, aos poucos, a gente pôde começar a compor. Também era estranho tocar com a orquestra de Rogério Duprat.

Ana: E como era o ambiente de estúdio das gravações? A impressão que se tem é que vocês se divertiam muito.
Arnaldo: Quando entramos num palco, parece que viramos outra pessoa. No estúdio também. De repente ficávamos possuídos por uma espécie de dom carismático, e começávamos a improvisar, e a levar adiante as máquinas. Muito gostoso.






SÉRGIO DIAS - COMO DISSE O AMIGO VINICIUS JUNQUEIRA, APENAS PARA CONSTAR KAKAKAKAKA
Ana: Você era um adolescente.
Arnaldo: Ficava embasbacado diante dele. Gil era muito mais sangue, uma coisa bem ventre, era uma delícia tocar com Gil. Já Caetano era mais mental, tinha um lado profundo, político, filosófico…

Ana: Você gostava da Jovem Guarda?
Arnaldo: Gostava. Mas a gente ficava meio de fora, não é? Éramos paralelos à Tropicália. Mas a gente nunca fez parte integral nem da Tropicália nem da Jovem Guarda.

Ana: Vocês transitavam pelas duas vertentes.
Arnaldo: Tal qual o nome Mutantes, a gente ficava: Jovem Guarda, Gil, bonita guitarra. Depois, Caetano e berimbau e lindas roupas e canções.

Ana: Em sua opinião, existem fatos ou personagens na história da Tropicália menos valorizados do que deveriam ser?
Arnaldo: Interessante essa pergunta. Não consigo pensar assim de improviso. Às vezes há personalidades que marcam demais e não têm tanta importância.

Ana: Você lembra de Rogério Duarte?
Arnaldo: É um nome que me pega bastante no coração. Sei que foi importante, mas não sei até que ponto.

Ana: Qual é a diferença básica entre os Mutantes tropicalistas e os Mutantes depois da Tropicália?
Arnaldo: Rita Lee é filha de americanos, a gente falava bastante inglês nas músicas. Mas com a Tropicália os Mutantes ficaram bem mais brasileiros. Porque antes a gente ouvia rádio e tal, mas não tinha onde se apoiar para compor. É um lado meio mata virgem, que a gente foi lá e viu. Então passamos a entender melhor o que levava adiante.

Ana: Como você interpreta o interesse dos americanos pelos Mutantes, de uns anos pra cá?
Arnaldo: Na época, a gente talvez representasse um lado bem americano da música brasileira. Com Gil, misturamos tudo. Os americanos aprenderam isso conosco, entraram junto. A gente talvez sirva de intérprete entre a cultura americana e a Tropicália bem baiana.

Ana: Naquela época vocês já se sentiam na vanguarda do rock?
Arnaldo: Agora que você me fala nesse sentido, acho que o disco tropicalista foi o mais importante. Ele foi uma pedra da Tropicália. Antes era prematuro, e depois… Ali encontramos um agrupamento mais geral. Gosto de Duprat.

Ana: A década de 60 foi um período de confronto de forças, tanto políticas quanto estéticas. Você conquistou inimigos por ter participado da Tropicália?
Arnaldo: Pensando bem, não. Papai era político. Mas eu nunca entrei profundamente nem na política nem na música. Não me lembro de nada.




Ana: No FIC, durante a apresentação de “É proibido proibir”, a platéia vaiava e jogava coisas em vocês. Como foi isso pra você?
Arnaldo: Caetano falava: “É essa a juventude que quer dominar o país?” Isso emocionou. Naquela época, me sentia muito inferior a Caetano, em função da cultura dele. Era difícil, porque eu tinha uma lacuna de não entender o que Caetano pensava politicamente falando. Caetano tinha uma lacuna no instrumental, contrabaixo, bateria, rock’n’roll. Então a gente se completou. Eu me sentia atirado numa aventura, eu, palco, Caetano e público.

Ana: Você sentia medo?
Arnaldo: Não. A gente entra no palco e muda. Me deixei levar, e cada vez acontecia uma coisa diferente. Eu gostava.

Ana: Você ouve muita música hoje em dia?
Arnaldo: Bastante. Na época da Tropicália, raramente ouvia Bossa Nova, Zimbo Trio, essas coisas. Ficava meio paralelo. Hoje em dia também, não escuto muito rádio. Gosto muito de Diana Ross. Estudo bastante bateria, escalonamento de sons. Mas mudo muito. Ano passado era mais piano. Cada ano um instrumento.

Ana: Qual seria a sua definição da Tropicália?
Arnaldo: Não sei, algo mais ou menos assim: um lado onde o Brasil foi visto pelos brasileiros com os espelhos dos gringos. A gente viu o que eles viam da gente. Então, se eles viam a gente como papagaio, como rock’n’roll, a gente usou os americanos como espelho. Passamos, de certa forma, a encarar o Brasil como turismo.

CONTRACULTURA E A PÓS-MODERNIDADE

ARMANDO ALMEIDA

Pós-modernidade e contracultura são duas palavras com conotações muito amplas. E relativamente muito polêmicas. Por isto, desponta logo a necessidade de elucidar-se o sentido que aqui a elas se dá. Inevitavelmente, ao fazê-lo, mesmo em separado, já se estará refletindo sobre o que ambas têm em comum. Sobre seus pontos de convergência, enfim. Com isto, esclarece-se também o porquê do propósito de um ensaio que busca analisar o que as faz interpretações da contemporaneidade.Para muitos autores os fatos que as caracterizam tornaram-se mais evidentes em fins dos anos 60. Reconhece-se ali um momento de ruptura ou “descentramento” do sujeito moderno. Mais que um momento histórico de amplas repercussões econômicas e sociais o que em geral as têm singularizado é a desconstrução de paradigmas. Chama a atenção o destaque que a dimensão cultural tem em ambas. Especialmente suas conseqüências sobre as atitudes e os comportamentos do homem contemporâneo. Sobre suas mentalidades. Grosso modo, a atitude refratária à pós-modernidade, enquanto categoria de análise está fundamentada, basicamente, sobre dois aspectos. Para alguns, este marco divisor da modernidade, ajuda a consolidar a idéia de que sua inauguração constrói uma ilusão da existência de dois momentos muito distintos na história contemporânea. Algo como uma supervalorização das transformações contemporâneas. Não esquecendo que o conceito de modernidade está umbilicalmente associado ao capitalismo. Vista assim, pensar em pós-modernidade implicaria, por conseguinte, necessariamente, em uma superação de seu modelo.
Outros criticam o evolucionismo que está contido na idéia de uma etapa após outra, algo positivista pela proximidade com os conceitos de progresso e desenvolvimento, muito bem apropriados pelo modo capitalista de ser. Anthony Giddens, em texto já clássico, radicaliza. Fala que aquele momento coincide com o ‘fim da história’. Depois dela não se poderá falar em evolucionismo social. Comprometido com este espírito, Giddens afirma que além de reduzir a relevância da pós-modernidade, “desconstruir o evolucionismo social significa aceitar que a história não pode ser vista como uma unidade” (GIDDENS, 1991, p.15)2. Há, entretanto, algo em comum em todos que se debruçam sobre o assunto: vivemos uma transição. É o que se percebe. Gianni Vattimo, importante ícone pós-modernista, por exemplo, ao identificar que há uma crise na idéia de progresso, constata que já não se pode mais falar “de história como qualquer coisa de unitário” (1989, p. 8), verificando, ao mesmo tempo, que “em alguns de seus aspectos essenciais a modernidade acabou” (1989, p. 7). Giddens, por sua vez, quase contraditoriamente, associa a ausência de credibilidade dos fundamentos epistemológicos construídos na modernidade com uma “nítida disparidade” quanto ao passado, reconhecendo que “estamos alcançando um período em que as conseqüências da modernidade estão se tornando mais radicalizadas e universalizadas que antes” (1991, p.13).
A reação à contracultura não é diferente. Talvez pior, porque sobre ela sempre pesou a idéia de algo utópico e alienado do mundo concreto. Projeto de uma sociedade alternativamente inviável ao modelo civilizatório vigente, leia-se dominante. Um “sonho que acabou” e que foi fortemente “cooptado” pela sociedade de consumo moderna. A voracidade do capital teria transformado aqueles jovens que a fizeram em importantes reprodutores do “sistema” ou mesmo demonstrado que não eram tão alternativos assim.Sobre este assunto, é ilustrativa a opinião de Frederic Jameson ao “periodizar” os anos 60. Ele chega a afirmar que aquele “sentido de liberdade”, que lhe era próprio, não passou de uma “ilusão histórica” (1991, p. 125). “Com o fim dos anos 60, com a crise econômica mundial, todas as velhas contas (sic) infra-estruturais voltam então lentamente a pesar; e os anos 80 se caracterizarão por um esforço, em escala mundial, para proletarizar todas essas forças sociais liberadas” (1991, p. 126). Seguindo raciocínio semelhante, mas com sutis diferenças, Douglas Kellner comenta que o “multiculturalismo” pode, como movimento e ideologia, facilmente, ser ‘cooptado’ “através da promoção da tolerância e da aceitação de diferenças” (2001, p. 128) em um processo de renegociação da hegemonia. Para ele, isto é o que teria acontecido com a contracultura (2001, p. 139).
Marcar um momento cultural na história é quase sempre muito delicado. Sobretudo porque não há momento histórico que não resulte de uma tessitura permanentemente redesenhada e que a cada instante apresente matizados diferentes, multiplicados mais ainda pela experiência pessoal de cada observador. Os fatos sociais não caem do céu. Eles são produtos de uma permanente negociação entre seus atores. Ainda assim, é possível identificar momentos especiais de ruptura na ordem social, especialmente quando eles estão associados a acontecimentos marcantes. Espetaculares ou não.Este talvez seja o caso da contracultura e da pós-modernidade. Em geral os marcos inaugurais das duas estão mais associados aos anos 60. Mais exatamente à segunda metade daquela década. Foram anos onde muita coisa mudou a cara do mundo. Vêm daí grandes transformações contemporâneas capazes de dar e exigir um novo sentido à contemporaneidade.
Não por acaso naquele momento o planeta conectava-se quase que completamente, consolidando aquilo que se chamou de grande aldeia global. Base para o que hoje ficou conhecido como globalização.Este é o caso, por exemplo, das transformações vividas no campo das comunicações, representadas inicialmente pela transmissão via satélite e posteriormente pela internet e pelo celular. Só para ficar em alguns dos mais evidentes sinais desta revolução. Para tanto contribuiu em muito o desenvolvimento da microinformática. É simbólico que a primeira transmissão via satélite do planeta tenha sido feita com os Beatles cantando All we need is love. Signos de uma sociedade de massa, confirmando a tese de Walter Benjamin “quanto ao papel crescente desempenhado pelas massas na vida presente” em decorrência das transformações contemporâneas das técnicas de reprodução dos bens culturais (1969, p.65). Quantidade gerando qualidade.Reforça ainda a visão de Benjamin a maneira como Douglas Kellner vê a cultura da mídia: “um terreno de disputa que reproduz em nível cultural os conflitos fundamentais da sociedade, e não como um instrumento de dominação” (2001, p. 134). Ainda ele: “para funcionar diante de seu público, a cultura da mídia precisa repercutir a experiência social, “encaixar-se” no horizonte social do público, e assim a cultura popular da mídia haure medos, esperanças, fantasias e outras inquietações da época” (2001, p. 138).Para Vattimo a pós-modernidade está marcada pela consolidação da comunicação generalizada, mate-rializada pela “sociedade da comunicação”, a sociedade do mass-media (1989, p. 7), que “abre caminho a um ideal de emancipação que tem antes na base a oscilação, a pluralidade, e por fim o desgaste do próprio ‘princípio de realidade’” (1989, p. 9). Por tudo isto, Vattimo chega à conclusão de que os mass media “tornaram-se elementos de uma grande explosão e multiplicação [de] visões de mundo” (1989, p. 9).A associação que alguns autores fazem da democratização da internet, ou do ciberespaço, como se queira, com os ideais libertários da contracultura, mereceria um maior aprofundamento pelo que têm de elu-cidativo sobre muitos traços definidores da pós-modernidade, essenciais em quase todos os perfis que dela fazem seus estudiosos, e que de alguma forma estão espaçadamente presentes neste artigo. Parece que não é uma simples coincidência que são filhas do mesmo lócus: a Califórnia.
Pierre Lévy fala que “o cres-cimento do ciberespaço resulta de um movimento internacional de jovens para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem” (LÉVY, 1999, p. 11). Diz ainda que “um verdadeiro movimento social nascido na Califórnia na efervescência da ‘contracultura’ apossou-se das novas possibilidades técnicas e inventou o computador pessoal” (LÉVY, 1999, p. 31). E conclui que “aqueles que fizeram crescer o ciberespaço são em sua maioria anônimos, amadores dedicados a melhorar constantemente as ferramentas de software de comunicação” (1999, p. 126).Manuel Castells compondo um retrato do “caráter contracultural” das grandes transformações vividas a partir dos anos 70 no mundo da informação, a partir do que chamou de união de uma certa “cultura de liberdade” e “iniciativa empreendedora” vinda dos campi norte-americanos, assim se expressa sobre o assunto: “é provável que o fato de a constituição desse paradigma ter ocorrido nos EUA e, com certa medida, na Califórnia e nos anos 70, tenha tido grandes conseqüências para as formas e a evolução das novas tecnologias da informação”. E continua, “meio inconscientemente, a revolução da tecnologia da informação difundiu pela cultura mais significativa de nossas sociedades o espírito libertário dos movimentos dos anos 60” ( 2003, p. 43). Não há autoridade indiscutível na internet. Isto é um fato. As redes sociais não costumam ter centro. O que as fortalece não são as individualidades, mas a intensidade de suas ligações/conexões. Com a internet instala-se um esquema de comunicação maciça, sem midiatização dos meios de comunicação. É no mínimo curioso que para Manuel Castells a apropriação da internet guarde uma relação com as “táticas maoístas de dispersão das forças de guerrilha, por um vasto território, para enfrentar o poder de um inimigo versátil e conhecedor do terreno” (2003, p. 44). A internet teria sido resultado de “cruzados tecnológicos” de uma geração de cientistas comprometidos com os ideais contraculturais, convicta de que estava modificando o mundo e que, em função disto, habilmente construiu as bases para a democratização da internet, tirando-a da esfera exclusiva do exército e da universidade, popularizando-a (2003, p. 86). Não parece coincidência que Frederic Jameson também destaque nas intervenções políticas dos anos 60 o que chama de “simbólico maoísmo”. Modelos político-culturais de um terceiro-mundismo inspirado em Frantz Fanon4 (1991, p. 84). “A revolução cultural como estratégia para romper antigos hábitos de submissão e obediência, internalizados como uma segunda natureza” (1991, p. 96).Tudo isto parece estar afinado com certo estágio de abundância do capitalismo, fortemente marcado pela consolidação de uma sociedade de massa com alto grau de urbanização. Parece natural também que a contracultura tenha tomado sua forma mais bem acabada nos Estados Unidos. País líder do capitalismo. Centro produtor e distribuidor de parte substancial da cultura popular de massa contemporânea.
Naquele momento, o Brasil, como muitos outros paises ainda na periferia do mundo capitalista, estava deixando de ser rural para ser urbano. Metade de sua população já estava vivendo nas cidades, afinada com o ritmo mundial. Aliás, citando Castells, Canclini afirma que a expansão urbana e a expansão dos meios de comunicação são causas centrais da hibridação cultural, para ele, definidora da contemporaneidade (CANCLINI, 2003, p.285). Responsáveis pela “desterritorialização dos processos simbólicos” e pela “expansão dos gêneros impuros” analisados por ele (2003, p.284). Reforçando a tese sustentada por Eliana Reis de que “o sujeito pós-colonial forma-se pela transculturação” (1999, p. 217).
Não apenas no campo da tecnologia o contexto era favorável a uma ruptura cultural. Também no campo da política e da economia. O processo de emancipação das ex-colônias européias recrudesce. A invasão da Tchecoslováquia pela Rússia e a guerra do Vietnã foram duros golpes aos dois modelos de sociedade que se apresentavam ao mundo. Assistiu-se a uma crise das organizações tradicionalmente estruturadas e organizadas, tipo partido político e sindicatos. Recuperadas da segunda guerra mundial, muitas economias ocidentais e orientais realizaram processos de acumulação de capital capazes de incluir amplas faixas médias da população em um grande mercado, consolidando, a partir daí, um consumo de massa rapidamente globalizado. Giddens aponta a emergência de novos movimentos sociais como elementos diferenciadores de uma época. Eis o que ele diz sobre este último aspecto diferenciador da pós-modernidade: “uma nova agenda social e política surgiu com a crescente proeminência de movimentos ecológicos e talvez de novos movimentos sociais em geral” (1991, p.52). “A ascensão de novos movimentos sociais e criação de novas agendas políticas”, leva Anthony Giddens, ainda que “circunspectamente” a analisar a pós-modernidade como algo além dos “diversos feixes institucionais da modernidade”. A ponto de afirmar que “não vivemos ainda num universo social pós-moderno, mas podemos ver mais do que uns poucos relances da emergência de modos de vida e formas de organização social que divergem daquelas criadas pelas instituições modernas” (1991, p.58). Pós-modernidade, pois, como parece óbvio, é o período que se inicia imediatamente após finda a modernidade. Ela está evidentemente associada a algo para além da modernidade. Será que podemos relativizá-la? Honestamente a contracultura estava comprometida com uma nova consciência, uma nova era. Falava-se em uma era de Aquarius.
Quase unanimemente é possível dizer-se que a modernidade está associada a um período da história em que emerge e se consolida um certo espírito do capitalismo. Para muitos a modernidade se inicia com a expansão do mercantilismo, lá por volta do século XVII, ulteriormente mundializando seu estilo e seus costumes (GIDDENS, 1991, p.11). Vattimo trata o final do século XV como o início oficial da idade moderna. Para outros, ela se inaugura ao longo da revolução industrial, com a consolidação do “modo de produção capitalista”. Como Marx, que a via como o momento em que o capital se apodera da esfera da produção, estruturando-se com base no “trabalho livre”, via assalariamento, e na sofisticada divisão do trabalho industrial. Bom lembrar que também para Weber “a organização capitalística racional do trabalho livre” é traço definidor do moderno capitalismo (2002, p. 26). Junto com a estruturação industrial do trabalho: “separação dos negócios da moradia da família” com dizia ele (2002, p. 26). Ainda que date “o racionalismo econômico” afirmando que ele domina o ocidente desde os séculos XVI e XVII (2005, p. 337).Do ponto de vista da estruturação econômica, duas grandes alterações parecem verificar-se com a pós-modernidade. Com base nas novas tecnologias de produção e comunicação, via automação e informática e avanços na transmissão e gravação de dados, os dois pilares citados acima parecem começar a se desestruturar: o assalariamento e estruturação industrial do trabalho. O assalariamento está recuando e está crescendo o trabalho autônomo, desvinculado do ambiente fabril. Novas tecnologias contemporâneas de gestão como a terceirização, as técnicas de just in time e de reengenharia da produção, só para citar algumas mais conhecidads, também ajudaram a viabilizar um número maior de home officers e free lancers. Sem sair de casa muita gente hoje pode realizar seu trabalho a um custo menor para os dois lados. Melhor ainda, não precisa necessariamente estar em um lugar fixo. Muitos podem estar em qualquer lugar. Por controle remoto se pode gerenciar processos produtivos a longas distâncias, sem a presença do ser humano, dando um novo sentido a automação industrial e alterando radicalmente a industrialização e a base material da sociedade. A isto se tem dado muitos nomes: “sociedade da informação”, “economia em rede”, “capitalismo tardio”, “sociedade pós-industrial”, “sociedade da comunicação” etc. Manuel Castells é, sem dúvida, um dos grandes estudiosos desta “sociedade em rede”. É ele que diz: “estamos testemunhando um ponto de descontinuidade histórica” (2003, p. 119). E completa, dizendo que se trata de um “processo de profunda reestruturação, caracterizado por maior flexibilidade de gerenciamento, descentralização das empresas e sua organização em redes” (2003, p. 39). Ainda assim, para ele, a nova sociedade que emerge é capitalista. “Capitalista e também informacional” (2003, p. 50), para tanto distinguindo entre modos e produção e modos de desenvolvimento e entre industrialismo e informacionalismo (2003, p. 51).
Segundo Pierre Lévy, outro importante estudioso do assunto, as novas possibilidades de criação coletiva e colaboração em rede colocam em questão o funcionamento das instituições e a divisão social do trabalho, transformando, enfim, as condições de vida da sociedade (1999, p. 172). Para ele “o universo da cibercultura não possui nem centro nem linha diretriz” (1999, p. 111). Encantado, chega a falar “em mudança de civilização” (1999, p. 111), em ameaça aos privilégios culturais e aos monopólios (1999, p. 13) e também em atualização do declínio da totalização (1999, p. 151). Para ele, O estabelecimento de uma sinergia entre competências, recursos e projetos, a constituição e manutenção dinâmicas de memórias em comum, ativação de modos de cooperação flexíveis e transversais, a distribuição coordenada dos centros de decisão, opõem-se à separação estanque entre as atividades, às compartimentalizações, à opacidade da organização social (LÉVY, 1999, p. 28-29).Tudo isto torna tentador arriscar uma relação da pós-modernidade, em termos de impacto, com o que Weber7 chamou de “desencantamento do mundo”. Enquanto resultado de mentalidade inauguradora da modernidade e base para a hegemonia da formação social capitalista. Ela também resulta de uma grande crise de legitimidade das instituições sociais contemporâneas, apartadas das ações do cotidiano. Parece até que o feitiço e a racionalidade da sociedade moderna se quebraram. A questão ambiental e a precariedade de vida de grande parte da população do planeta diante de tanta tecnologia e tanta riqueza acumulada, por exemplo, põem em xeque o padrão e a lógica ocidental de desenvolvimento. Sua racionalidade. Conceitos como “descentramento” e a perda de suficiência das “grandes narrativas”, enquanto totalidades e panacéias interpretativas. tornam quase inevitáveis esta comparação. Ainda assim não é possível vislumbrar na sociedade pós-moderna indícios de superação da lógica mercantil. O lucro continua a ser buscado “racional e sistematicamente”, sob “formas pacíficas” de obtenção do lucro pela troca; tal qual Weber identificava no espírito do capitalismo moderno (2002, p. 55). Parece que não há nada que indique também alguma alteração radical nas bases do que Marx chamou de “sociedade produtora de mercadorias” quando identifica a supremacia da lógica mercantil e de seu fetiche, paralelamente a consolidação do modo de produção capitalista enquanto “relação social dominante” (1975, p. 88).Em face de tantas interpretações díspares sobre o fetichismo, cabe clarificar a noção que dele aqui se tem. E como se vê sua reprodução social. O fetichismo em Marx é parte intrínseca da produção de mercadorias (1975, p. 81). Mas é, sobretudo, através das trocas de mercadorias que ele se realiza. Ou seja, na circulação8 Vale observar que algo útil só se torna mercadoria se for destinado à troca. É a troca que lhe dá este status. Ela relaciona as mercadorias e as realiza como valores; atribuídos socialmente, segundo regras muito bem definidas, diga-se de passagem: “é mister [por exemplo] que reconheçam, um no outro, a qualidade de proprietário privado” (1975, p. 95), que se estabeleça uma relação de direito, com pesos, medidas, moedas etc. Tudo feito com muita naturalidade. Segundo Marx, reificação e ocultamento das relações sociais andam juntas neste processo: “a igualdade dos trabalhos humanos fica disfarçada sob a forma da igualdade dos produtos do trabalho como valores” (1975, p. 80). Pois, somente a troca dá homogeneidade de valores aos produtos do trabalho. Através dela uma relação social assume forma de relação entre coisas. Indo um pouco além, percebe-se que a igualdade de diferentes trabalhos está assentada numa abstração que põe de lado a desigualdade (1975, p. 82) 9.Com base no exposto acima, pode-se dizer, seguindo o pensamento de Marx, que uma sociedade baseada na troca generalizada de mercadorias será sempre fetichista. Não há no horizonte uma sociedade baseada em outro modelo. Não se pode desconhecer, contudo, que a sociedade contemporânea tem diferenças fundamentais também na esfera do simbólico em relação àquela que Marx analisou.Muito provavelmente a tradição de pensamento que se inaugura com Max Weber, pela dimensão que dá a cultura, ajude a melhor compreender a pós-modernidade. Ele faz compreender “como as idéias se tornam forças efetivas ao longo da história” (2002, p. 71). Como se articulam as estruturas culturais. “Na complexa interação dos inúmeros e diversos fatores históricos” (2002, p. 72). Isto ele demonstra analisando como o espírito do capitalismo, para consolidar-se, precisou conquistar uma supremacia intelectual (2002, p. 99). Primeiramente, originando-se como modo de vida (2002, p. 48). Para Weber a organização racional capitalista do trabalho torna-se força dominante na atividade econômica contemporaneamente ao ‘desencantamento do mundo’. Mais que isto, o “trabalhador livre” pressupõe uma disposição cultural somente conquistada através de “um longo e árduo processo educativo”, capaz de romper a “muralha do hábito” (2002, p. 53).
Corrobora para esta discussão a constatação de que a pós-modernidade é, para muitos, uma época que se inicia em função de um “descentramento”, como já se disse antes, que se traduz fortemente por um deslocamento contínuo do sujeito. Tanto Stuart Hall, quanto Giddens, Vattimo e Lévy vão buscar em Jean-Françóis Lyotard a idéia de perda das “grandes narrativas” na pós-modernidade10. A idéia de que as referências do homem moderno já não são mais as mesmas. O que lhe dá conteúdo, em suma, é a constatação de que as identidades que davam sentido a modernidade se fragmentaram e estão produzindo novas personas sociais, alterando relações de classe, gênero, raça, sexo e nacionalidade, entre outras. As referências individuais e coletivas se alteraram profundamente. Perderam a sua estabilidade. Adquiram uma provisoriedade e uma mutabilidade acelerada, fazendo crer que uma nova ordem está em curso e que se vive uma fase tardia da modernidade (HALL, 2002, p.10).A velocidade das transformações contemporâneas vem construindo novos sujeitos, novas tribos urbanas e comunidades virtuais, novas identidades enfim. “A mobilização social, do mesmo modo que a estrutura da cidade fragmenta-se em processos cada vez mais difíceis de totalizar” é o que diz Canclini, reforçando a idéia de que esta é uma importante característica da época globalizada com suas “estruturas microssociais de urbanidade” (2003, p. 288). Canclini, embora veja a pós-modernidade apenas como uma problematização das articulações que a modernidade tem estabelecido com as tradições que vem tentando “superar”, e que não a encerra, a vê também através da “emergência de múltiplas exigências, ampliada em parte pelo crescimento de reivindicações culturais e relativas à qualidade de vida, [que] suscita um espectro diversificado de órgãos porta-vozes: movimentos urbanos, étnicos, juvenis, feministas, de comunidades, ecológicos etc.” (2003, p. 287).
Dialeticamente, palavras de Canclini, “os meios massivos também contribuem para superar a fragmentação”, ampliam o espaço público, ainda que muitas vezes tornem o cidadão apenas clientes, públicos e consumidores (2003, p. 289).Frederic Jameson, por sua vez, trata dos anos 60, como ele diz, não como algo uniforme ou onipresente em termos do pensar e do agir, mas como possibilidades variadas de respostas e soluções criativas ao contexto (1991, p. 82) e o pós-modernismo é para ele “um enquadramento sugestivo para explicar o que aconteceu com a cultura nos anos 60” (1991, p. 105).O capitalismo tardio pode portanto ser definido como o momento em que os últimos vestígios da natureza que sobreviveram ao capitalismo clássico são finalmente eliminados: os anos 60 terão sido então o momento do período de transformação em que esta reestruturação sistêmica se fez em escala global (JAMESON, 1991, p. 124). Ali ele também identifica a emergência de “novas identidades coletivas”, “novos sujeitos da história”. Surgimento de novas categorias sociais e políticas que põem em xeque a movimentação clássica de classe social: “para os militantes ocidentais, o que começou a emergir dessa guinada, a princípio meramente tática e retórica, foi um espaço político, um espaço que virá a ser articulado pelo slogan ‘o pessoal é o político’” (JAMESON, 1991, p. 98). Em “repúdio às antiquadas políticas de classe e de partido de topo ‘totalizante’, movimentos como o feminista ‘minam e desacreditam’ as formas clássicas de ação política” (1991, p. 102).Ainda que enfatize o feminismo, Stuart Hall vê a contracultura indissoluvelmente ligada ao descentramento das identidades modernas, ao “alargamento do campo das identidades” e ainda a “um aumento de polarização entre elas” (2002, p.84).
Oportuno também citar Nestor Garcia Canclini. Para ele:a democratização da vida cotidiana e da cultura política na segunda metade do século XX foi propiciada, sobretudo, pelos meios eletrônicos de comunicação e por organizações não tradicionais juvenis, urbanas, ecológicas, feministas (grifos nossos) – que intervêm nas contradições geradas pela modernização, em que os antigos agentes são menos eficazes ou carecem de credibilidade (CANCLINI, 2003, p. 352).São estes novos sujeitos da história, essas novas identidades coletivas, associadas à emergência de novos movimentos sociais e a uma nova dimensão do fazer político que reforçam a idéia de que a contracultura nasce no olho do furação. É síntese, mas também produto e resultado dos anseios de uma época comprometida em consolidar uma nova visão de mundo. Ela foi além do partidarismo. Ampliou o seu campo de luta, politizando o cotidiano. Trouxeram-se para o terreno da política questões de gênero, sexo, de liberdades individuais, ambientais, de raça etc. Questões que transcendem o universo da luta de classes, porque são de uma outra ordem. Vão além de meras relações de trabalho. Indissoluvelmente ligadas a valores, idéias e costumes. Questionava-se o próprio modo de viver da sociedade ocidental. Suas relações de reprodução da vida social.Parece que não por outro motivo, análises da sociedade contemporânea levam estudiosos como Canclini a concluir que “a busca de mediações, de vias diagonais para gerir os conflitos”, [vem dando] “as relações culturais um lugar proeminente no desenvolvimento político” (CANCLINI, 2003, P. 349).Como seu próprio nome indica o foco da contracultura foi a cultura, e estava voltado a temáticas que não dizem respeito apenas a um país e a um círculo restrito. Ao contrário, ela foi um movimento de massa. Matriz de atitudes novas. Expressão do seu contexto e de seu “sistema de significações”. Como diria Bourdieu (2004), um estudioso atento a propriedades comuns a classes sociais distintas11. Atento aos traços transculturais que traduzem ou revelam aos olhos dos outros uma posição na sociedade. Ainda que não veja como as classes menos favorecidas possam intervir no jogo das significações simbólicas enquanto veículos de poder e de política (2004, p. 23). Pois, para ele, os “princípios de estruturação do mundo” ‘naturalizados’ e ‘interiorizados’ só podem ser abolidos “através de uma revolução simbólica” semelhante àquelas produzidas por Copérnico, Gallileu e Maquiavel (2004, p. 72). Não seria este o caso?Essa é uma posição muito semelhante àquela expressa por Adorno e Horkheimer. A contracultura é visivelmente um fenômeno que contrasta com as avaliações feitas por eles quando subestimam a capacidade subversiva das massas urbanas, não contando pudesse haver tantos ‘outsiders’ culturais no ‘capitalismo tardio’ (2000, p.140). Para eles a indústria cultural é apenas um instrumento de dominação (2000, p.138). Não deixando margem para qualquer negociação entre seus atores sociais.Por tudo isso, vale continuar citando Hall. Ali, naqueles anos contraculturais, ele identifica uma nova postura política, agora centrada nas diferenças e na consolidação de novos movimentos sociais, afinados através da identidade social de seus militantes (2002, p.21), consolidando “arenas inteiramente novas de vida social: a família, a sexualidade, o trabalho doméstico, a divisão doméstica do trabalho, o cuidado com as crianças, etc.” (2002, p. 45). O que, de pronto, incluiu a valorização de outras culturas, outras éticas, etnicidades e religiosidades. Com a contracultura multiplicaram-se as Organizações Não Governamentais. Multiplicaram-se iniciativas comprometidas com uma nova visão de mundo, sensibilidade e comportamento.
Vale citar Marcuse: "em última análise, a luta por uma expansão do mundo da beleza, da não-violência, da calma, é uma luta política" (1979, p.51).Via Castells é possível falar-se em construção de um novo sentido global. Multicultural. Interdependente e digital. Que tem alterado radicalmente a nossa maneira de viver e representar; penetrando em todos os domínios da atividade humana, e passando a compor o tecido social (2003, p. 68). Onde os movimentos sociais tendem a fragmentarem-se em lutas locais, muitas vezes efêmeras. Para ele a identidade12 é o “princípio organizacional” que mais parece caracterizar as “sociedades informacionais”. A luta de classes foi de certa forma substituída pela luta de identidades. “Fonte básica de significação social” (2003, p. 41). Isto tem consolidado “um novo ser coletivo” (2003, p. 59), fazendo com que as pessoas tendam “a reagrupar-se em torno de identidades primárias: religiosas, éticas, territoriais, nacionais” (2003, p. 41), constatando ele, que “houve uma redefinição fundamental de relações entre mulheres, homens, crianças e, consequentemente, da família, sexualidade e personalidade” (2003, p. 40). A contracultura é marcada por um contradiscurso. Uma atitude anti-consumista, e de repúdio ao lucro e ao comércio, à repressão de qualquer natureza, físicas ou culturais. Com ela o Oriente passa a ser uma referência de sabedoria não apenas espiritual, mas dotado de conhecimentos médicos, nutricionais, farmacológicos, agronômicos e de práticas cotidianas em geral. Seu jeito de ser não combina com o sentimento de culpa cristão, com o trabalho ascético que Weber viu na raiz da modernidade e que conflita com o desfrute da vida (2002, p. 121). E está bem distante da “teodicéia do infortúnio” construída por “uma visão racional do mundo” que deu ao sofrimento um valor positivo no modernismo (2005, p. 317).
Parodiando Max Weber pode-se dizer que a racionalização da conduta da vida passa a assumir várias novas formas (2005, p. 337). Parece que com a contracultura foram abalados dois pilares da cultura européia e ocidental: o cristianismo e o culto a razão.Novas teorias culturais inspiraram-se em novos movimentos sociais e obrigaram a grande número de mudanças no modo como vemos os textos e reagimos a eles. Os cânones da cultura masculina, branca e européia foram desafiados, e um amplo espectro de vozes e indivíduos novos ficou sendo conhecido (KELLNER, 2001, p. 127).